Capítulo 2: Onde o Treinamento Começa

Momentos após começar a aceitar sua nova realidade, Marcos despertou de seus devaneios e passou a observar com mais atenção o ambiente ao redor. Estava em uma caverna colossal, de formato circular, com três colunas gigantescas posicionadas nos extremos, como se dividissem o espaço em três setores distintos.

À esquerda, seis imponentes estátuas de pedra se alinhavam. Cada uma delas guardava, aos seus pés, três objetos misteriosos — dispostos como se fossem relíquias ou monumentos sagrados, lembrando Marcos de grandes símbolos históricos que já vira em museus ou documentários.

No lado oposto, doze estruturas semelhantes a portais de pedra se erguiam em semicírculo. No entanto, seus interiores estavam vazios, como molduras esperando por algo. Um mural de pedra, colocado logo à frente desses portões, exibia papéis pregados de forma desorganizada, alguns quase caindo.

Já na última seção do salão, havia um pequeno lago de águas cristalinas, uma cama simples disposta no chão e duas prateleiras encostadas na parede de pedra — uma repleta de frascos coloridos, e a outra com sacos de pano cuidadosamente empilhados.

A visão do lugar o deixava entre fascinado e confuso. O ambiente parecia ao mesmo tempo primitivo e avançado — como se misturasse a natureza a uma tecnologia que ele não compreendia.

Ainda sentindo o peso da estranheza, Marcos se virou para seu acompanhante e perguntou, com um tom hesitante:

— É… com licença, mas… como eu devo te chamar?

A pequena criatura flutuava ao seu lado, seus olhos grandes e azuis transmitindo uma mistura de malícia e bravura. Seus movimentos eram leves, quase etéreos, como se ele fosse parte da própria floresta que o havia inspirado. Apesar da aparência fofa e carismática, Marcos ainda não se sentia completamente à vontade ao seu lado — era algo novo demais, estranho demais. Mas, curiosamente, o desconforto foi diminuindo pouco a pouco, como se aquela presença despertasse algo familiar dentro dele.

Antes mesmo de responder, o ser flutuante sorriu e disse, com sua voz suave e amistosa:

— Eu sou o seu guia. Mas… você provavelmente me reconhece como Verditos. Pode me chamar assim, se quiser. Ou apenas “guia”, se for mais confortável. Fui criado pela Guardiã para ajudá-lo nessa etapa inicial do seu treinamento.

Marcos piscou algumas vezes, tentando processar a informação.

— Verditos? — murmurou, ainda confuso. — Mas… por que você tem a aparência do mascote da minha guilda?

Verditos deu uma risada travessa e começou a flutuar em círculos ao redor dele.

— A Guardiã nos moldou para que tivéssemos uma forma acolhedora, familiar. A ideia era fazer você se sentir em casa — explicou ele, com um sorriso no rosto. — Sua mente aceitaria melhor esse mundo se houvesse algo que parecesse… conhecido.

Marcos observava a criaturinha com uma mistura de desconfiança e curiosidade. Ainda era difícil acreditar em tudo aquilo, mas, de alguma forma, o tom leve e quase brincalhão de Verditos ajudava.

— Hm… entendi. — Marcos coçou a nuca, pensativo. — Adaptação, é isso? Só que… tudo ainda parece tão surreal. Você fala de uma “Guardião”, de um “treinamento”, de um “ser invasor” … O que tudo isso realmente significa? Quem é essa tal de Guardiã? Ela é tipo uma deusa? Por que me trouxe para cá?.

As perguntas vinham em cascata, atropelando-se umas às outras. Marcos nem sabia por onde começar. Verditos pousou lentamente no chão de pedra, suas pequenas folhas balançando com o movimento. Inclinou a cabeça, como se ponderasse o que dizer.

— Há muito que você ainda não sabe, Marcos. E a sua jornada… está apenas começando — disse ele, com serenidade. — Cabe a mim guiá-lo nas primeiras etapas. Então, vamos com calma. A Guardiã… pode ser compreendida como um ser cósmico, ou celestial. Para muitos humanos, ela se pareceria com o que vocês chamam de deusa. Mas o nome ou rótulo não importa. O que importa é o papel que ela cumpre.

Verditos ergueu uma pequena folha, como quem explicava algo importante a uma criança curiosa.

— Ela é a responsável por manter o equilíbrio deste planeta. Mas agora, um outro ser — de poder equivalente ao dela — está vindo. Seu objetivo é tomar o controle do mundo. Só que, para isso, ele precisa primeiro anular a influência da Guardiã… aos poucos, como se estivesse apagando sua presença.

Marcos apertou os olhos, tentando entender.

— Mas… se ele quer o planeta, por que destruir as pessoas? Isso não seria… contraprodutivo?

O pequeno guia suspirou. Pela primeira vez, seu semblante se tornou levemente sombrio.

— Porque as pessoas… são as criações dela. Elas carregam a energia vital do planeta, e enquanto essa energia existir, ela ainda terá poder aqui. Para o invasor dominar completamente este mundo, ele precisa eliminar tudo aquilo que está conectado à Guardiã. Ele não pode enfrentá-la diretamente… ainda. Então, age por meios indiretos: espalhando corrupção, enfraquecendo sua influência, e destruindo as bases da vida como vocês conhecem.

Marcos ficou em silêncio, digerindo aquelas palavras. Sentia um frio no estômago. Aquilo parecia consequências altos demais para se sentir seguro — mas também alto demais para simplesmente ignorar.

Marcos finalmente saiu de seus pensamentos e voltou a encarar o pequeno ser flutuante.

— Certo… então por onde eu começo esse tal treinamento?

Verditos piscou seus grandes olhos azuis e ergueu uma das mãos. Com um gesto rápido no ar, um brilho suave se formou à frente de Marcos. Um holograma começou a ganhar forma — parecia feito de pura luz, mas era nítido e estável como vidro.

— Antes de tudo, você precisa entender uma coisa — começou Verditus, com um tom mais sério. — Você não é mais um humano comum. A Guardiã — ou deusa, se preferir — removeu os limitadores naturais do seu corpo e te concedeu uma bênção especial. Isso significa que seus atributos físicos, mentais e até mágicos agora podem se desenvolver muito além do que seria possível no seu mundo de origem.

Ele continuou, flutuando ao lado do holograma.

— Por exemplo, antes, se você treinasse muito, seus músculos iriam crescer até um certo ponto e depois estagnariam. Agora, seu corpo evolui de forma mais eficiente. A massa muscular, por exemplo, se torna mais densa, sem comprometer agilidade ou flexibilidade. Seu cérebro também passa a trabalhar de forma mais dinâmica. Resumindo: você agora tem potencial para se tornar algo… bem acima do que os humanos consideram “normal”.

Marcos arregalou os olhos enquanto o holograma se ajustava e exibia uma nova tela. Ali estavam suas informações básicas:

FICHA PESSOAL

Nome: Marcos Idade: 18 anos Altura: 1,76 metros Peso: 63 kg Sexo: Masculino

ATRIBUTOS

  • Força: 6
  • Agilidade: 6
  • Intelecto: 11
  • Vigor: 7
  • Resistência: 8
  • Destreza: 9

Mana: (2x Resistência + Intelecto)

HABILIDADES

Guardião (classe ainda não ativada)

• Passivas: —

• Ativas: —

— Então isso aqui… é tipo minha ficha de status? Igual em um jogo? — perguntou Marcos, intrigado.

— Exatamente! — respondeu Verditos, com um giro entusiasmado no ar. — Mas nunca se esqueça: apesar de parecer um jogo, tudo aqui é real. Ferimentos, decisões, consequências… tudo importa. Não é uma fantasia onde você pode simplesmente reiniciar.

Marcos se inclinou um pouco para frente, examinando os números com mais atenção.

— Certo… mas tipo, o que esses números significam exatamente? — questionou, apontando para os atributos. — Tipo, “7 de força” é bom ou ruim? Eu sei que não sou muito forte no mundo real, mas… aqui isso tem o mesmo peso? E como funciona para conseguir essas habilidades aí?

Verditos sorriu largo — dessa vez com um brilho satisfeito no olhar. Ele sabia que tinham atravessado o ponto mais importante: o momento em que o escolhido começa a se interessar de verdade pelo sistema.

— Excelente pergunta! — disse, animado. — Finalmente estamos prontos para o próximo passo. Vou te dar um resumo rápido de cada estatística, e depois… — ele esfregou as mãozinhas — faremos uma pequena demonstração prática. Preste atenção.

Verditos moveu novamente os braços no ar e, dessa vez, o holograma mudou de forma. As informações da ficha pessoal deram lugar a novos painéis, com textos descritivos que começaram a surgir um a um no ar.

O painel de luz agora exibia, de forma clara e elegante, a descrição dos atributos.

1. Força

Capacidade física de gerar tensão muscular para realizar ações como levantar, empurrar, puxar ou golpear. Está ligada à massa muscular e à potência bruta.

2. Agilidade

Velocidade de movimento corporal e habilidade para mudar de direção rapidamente. Envolve coordenação motora, esquiva e reflexos.

3. Intelecto

Capacidade de raciocínio lógico, tomada de decisões rápidas, criatividade, memória e adaptação a situações novas. Também influencia sua sensibilidade mágica.

4. Vigor

Resistência à fadiga física. Determina quanto tempo você consegue lutar, correr ou realizar esforço antes de se exaurir.

5. Resistência

Capacidade do corpo de suportar impactos, venenos, doenças e outros tipos de dano. Também influencia sua regeneração e defesa geral.

6. Destreza

Precisão nos movimentos. Afeta ações como arremesso, uso de armas, equilíbrio e manipulação de objetos com delicadeza ou técnica.

Mana = 2x (Resistência + Intelecto)

É a energia usada para ativar habilidades mágicas e habilidades especiais. A fórmula atual leva em consideração sua base física e mental.

“Então você conseguiu compreender a finalidade de cada estatística?” — perguntou Verditos, ao perceber que Marcos tinha terminado de ler todas as informações flutuantes.

“Sim, eu entendi o conceito que cada uma representa, mas agora… em termos práticos, quanto cada uma vale?” — respondeu Marcos, ainda franzindo a testa em confusão.

Verditos sorriu como quem já esperava essa pergunta.

“Então vou dar um exemplo prático aqui para você entender. Imagine uma pessoa natural — que não faz nenhuma atividade física direcionada, nem tem estudo técnico de alguma área específica — mas que possui boa saúde e inteligência média. Essa pessoa teria, no cenário ideal, estatísticas próximas de 10. Isso é o padrão humano médio.”

Verditos então moveu as mãos no ar novamente. Um novo gráfico surgiu no espaço, exibindo uma curva de crescimento.

— “Vamos usar a Força como exemplo, pois é mais fácil de visualizar. Os 10 primeiros níveis são fixos e diretos: cada ponto vale, por assim dizer, 5 quilos de força útil. Então, você com 6 de força deveria conseguir levantar 30 quilos do chão até a altura do ombro ou cabeça, sem risco de lesão. Já uma pessoa com 10 levantaria 50 kg, e assim por diante.”

 Força – Exemplo Prático de Escala

  • 10: 50 kg (pessoa comum saudável – limiar médio humano)
  • 11: +10 kg → 60 kg (treino casual)
  • 12: +20 kg → 80 kg (atleta amador)
  • 13: +30 kg → 110 kg (atleta profissional)
  • 14: +40 kg → 150 kg (levantador olímpico)
  • 15: +50 kg → 200 kg (limite extremo humano natural)

“A partir do 10, os ganhos crescem de forma exponencial”, explicou Verditus. “E cada nova dezena aumenta a base de multiplicação.”

 Escala Avançada – Após o Limiar Humano (nível 20 em diante):

  • 20: +100 kg → 600 kg
  • 21: +120 kg → 720 kg
  • 22: +140 kg → 860 kg
  • 23: +160 kg → 1020 kg

Verditos olhou para Marcos com um brilho nos olhos.

“Então deu para perceber? A cada ponto além do natural, os ganhos se tornam absurdos, saindo completamente do que o corpo humano conseguiria normalmente. É por isso que se diz que acima de 15 uma pessoa já entra em proporções sobre-humanas.”

Marcos, agora com os olhos fixos nos gráficos, refletiu por um momento antes de dizer:

“Certo… então 10 seria o valor ideal de uma pessoa comum… e 15 seria o auge de um ser humano no pico absoluto? Faz sentido. Mas… aquela parte da mana, ainda está confusa. Você mencionou 2x resistência mais intelecto, mas o que ela representa exatamente?”

Verditos então fez desaparecer os painéis e respondeu com um tom mais concentrado:

“Boa pergunta. A mana, dentro da simulação, não é uma energia mística no estilo contos de fadas. Aqui, ela é uma combinação realista de dois fatores: foco mental e energia vital interna. Por isso, ela é calculada com base no seu intelecto — ou seja, sua capacidade de foco e raciocínio — e na resistência, que é sua base física de sustentação.”

Ele cruzou os bracinhos no ar e flutuou em círculos.

“Em termos simples: mana é a energia que seu corpo e mente conseguem canalizar para fora. Essa energia é usada para ativar habilidades especiais, técnicas mágicas, e até reforçar o corpo em momentos críticos. Quanto maior sua resistência e intelecto, mais mana você terá disponível e maior será sua recuperação.”

Marcos passou a mão no rosto, absorvendo cada palavra.

— “Certo… Então é uma mistura de cérebro e corpo. Foco e vitalidade. Acho que estou começando a entender… Mas é muita informação de uma vez.”

Verditos sorriu de forma compreensiva.

— “Você está indo bem. O primeiro passo é entender. O segundo… é se adaptar.”

Marcos respirou fundo. Ele sabia que aquela seria só a primeira de muitas explicações, e que por mais que estivesse absorvendo tudo, a parte difícil ainda estava por vir: viver tudo aquilo na prática.

Então, olhando ao redor do salão, seus olhos pousaram novamente nas estátuas que decoravam o local. Por um instante, ele sentiu algo estranho. Uma delas parecia o observar de volta — um olhar inerte, mas não inofensivo. Como se ali dentro houvesse algo adormecido, esperando apenas o momento certo para despertar.

Verditos notou o olhar do jovem e disse, de forma enigmática:

— “Você ainda tem muito o que descobrir, Marcos. E… agora que realmente as coisas vão começar.”