Após uma noite de descanso, Marcos despertou sentindo-se um pouco mais revigorado. Ainda assim, antes de qualquer novo desafio, havia algo que precisava fazer: tomar um banho de verdade.
Desde sua chegada àquele estranho mundo, a única vez que se molhara havia sido na queda nada graciosa da plataforma de agilidade. Era hora de se limpar de forma apropriada. Caminhou até a prateleira onde estavam os suprimentos e pegou um dos sacos com roupas limpas — reabastecidas diariamente pela vontade da deusa, segundo Verditos — e seguiu até o lago.
Ao se despir e mergulhar nas águas cristalinas, foi surpreendido por uma agradável sensação de relaxamento, maior até que a de sua longa noite de sono. O corpo parecia se aliviar de cada tensão muscular, e ele logo se lembrou do que Verditos havia mencionado: o lago tinha propriedades regenerativas. A mana ao seu redor ajudava a acelerar sua recuperação natural, tanto física quanto mental.
Depois de um longo banho, vestiu o novo conjunto de roupas e guardou o anterior de volta no saco, deixando-o na prateleira conforme as instruções recebidas. Em seguida, foi até a despensa e preparou uma pequena refeição. Pela primeira vez em dias, pôde saborear a tranquilidade de um momento comum. Comer, tomar banho, respirar. Pareciam ações banais… mas agora eram quase um luxo em meio à intensidade daquele novo mundo.
Mas o alívio durou pouco.
Marcos sabia que não podia se dar ao luxo de ficar ali indefinidamente. Tinha objetivos. Tinha muito a aprender. Com isso em mente, procurou por Verditos mais uma vez.
— Como funciona o treinamento de mana? — perguntou, decidido.
Verditos ergueu as sobrancelhas, satisfeito com a pergunta.
— O treino de mana é, antes de tudo, sensorial. É algo que você não vê com clareza no início… mas sente. Melhor eu te explicar lá dentro — disse, já gesticulando em direção à área dos portais.
Chegando ao mural de missões, Marcos retirou um dos papéis.
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[Salão de Mana]
Desafio: Concentre a mana em suas mãos por pelo menos 10 segundos.
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Ele rasgou o papel sem hesitar. Um dos portais, desta vez emitindo uma luz azulada, brilhou intensamente. Ao atravessá-lo, se viu em uma sala pequena e fechada, com pouco mais de três metros de largura. No centro, um enorme círculo mágico cobria o chão. Símbolos antigos brilhavam suavemente em tons de azul, lançando faíscas etéreas que se dissipavam como brasa no ar.
— Sente-se no centro do círculo — instruiu Verditos. — A mana é como sua energia vital. Para percebê-la, você precisa aguçar os sentidos, como quem treina resistência ao frio ou ao esforço físico. Mas aqui, você vai se expor a algo que sua mente ainda não compreende por completo. Essa sala está saturada de mana, então vai ser como… aprender a ver com os olhos fechados.
Marcos se sentou no centro do círculo com as pernas cruzadas, tentando imitar a postura que vira tantas vezes em vídeos de meditação. As mãos repousavam sobre os joelhos, os olhos se fecharam e ele começou a respirar lentamente, concentrando-se em seus sentidos: o som ao redor, o tato, o olfato…
No início, nada aconteceu. O silêncio era profundo. O tempo passou, e a paciência de Marcos começou a esgotar-se.
Até que, quase como um sussurro, algo diferente começou a se manifestar.
Ele sentiu leves arrepios subindo por seus braços, uma sensação parecida com formigas caminhando sobre a pele. Um cheiro tomou o ar — o aroma da terra prestes a receber a chuva. Era indescritível, mas reconfortante, quase como uma lembrança antiga voltando à tona.
Aquela era a mana.
Instintivamente, concentrou-se naquela sensação, tentando expandi-la. Era como sentir suor escorrendo pelo corpo — mas dessa vez, ele tentava controlar para onde as gotas iriam. Lentamente, tentou guiar aquela energia para as mãos. Mas quanto mais se concentrava, mais cansado ficava. Cada segundo parecia um teste de resistência mental, e a pressão sobre seu corpo aumentava.
Era como mover algo invisível, com o peso de mil pensamentos.
Por fim, sem forças para continuar, seu corpo cedeu. Caiu de costas, ofegante, com o rosto coberto de suor e a cabeça latejando em dor.
Uma luz intensa tomou conta do salão. Marcos piscou os olhos, desorientado, e quando a claridade se dissipou, ele estava deitado novamente no centro da caverna principal. O suor escorria de sua testa e seu corpo ainda vibrava com o esforço mental que havia feito. Verditos o observava a uma curta distância, com uma expressão de surpresa sincera.
— Meus parabéns — disse ele, aproximando-se. — Na sua primeira sessão, você já conseguiu sentir a mana ao seu redor… e até tentou redirecioná-la. Isso é muito mais do que a maioria consegue. Muitos precisam de duas ou três tentativas só para alcançar essa primeira sensação. Isso é um progresso e tanto.
Marcos ainda estava deitado, ofegante, o rosto marcado pela frustração por não ter conseguido manter a energia por tempo suficiente para concluir o desafio. Mas, ao ouvir as palavras de Verditos, sua expressão mudou. Aquilo não havia sido uma falha. Na verdade, fora um passo gigantesco.
— Então… só sentir já conta como progresso? — perguntou, a voz ainda fraca.
— E como conta — respondeu Verditos, assentindo. — Mas eu recomendo que descanse um pouco antes de tentar de novo. Essa sala exige muito do seu foco mental. O treino de manipulação de mana é mais exaustivo do que parece, especialmente no início. No máximo uma vez por dia, entendeu?
Ele se afastou um pouco, cruzando os braços.
— Aliás, me diga… quanto tempo você acha que passou naquela sala?
Marcos refletiu por um momento. Aquilo havia parecido eterno. Só para começar a sentir a mana já lhe tomara uma eternidade, e depois… bem, ele perdera a noção do tempo.
— Não sei ao certo — respondeu. — Mas com certeza algumas horas. Talvez… umas três?
Verditos soltou uma risada baixa, como quem já esperava aquela resposta.
— Quatro minutos — disse ele. — Você ficou lá por apenas quatro minutos.
Marcos arregalou os olhos.
— Quê?
— A percepção do tempo lá dentro é distorcida. A sala é embebida em magia, o que provoca uma compressão temporal. Para sua mente, o tempo passa mais devagar… mas seu corpo ainda sente o impacto completo do esforço. É por isso que você está exausto, mesmo com tão pouco tempo real decorrido.
O jovem permaneceu em silêncio, processando aquela nova informação. A sensação que tivera… era impossível de explicar. Ao mesmo tempo em que era reconfortante como algodão quente envolvendo seu corpo, havia algo sufocante e opressor, como se mãos invisíveis o pressionassem por todos os lados. A mana era… viva.
Marcos assentiu, mais por reflexo do que por entendimento completo.
— Certo. Acho melhor não forçar — murmurou.
— Uma decisão sábia — completou Verditos. — O treino de mana exige paciência. Como tudo por aqui.
Após um breve descanso para recuperar as forças — e o orgulho — Marcos decidiu que não poderia encerrar o dia com apenas um único desafio. Relembrando as palavras de Verditos de que os salões de vigor e força eram os mais acessíveis, resolveu tentar um novo teste: o salão de força.
Dirigiu-se novamente ao mural de missões e retirou o papel correspondente. As instruções estavam claras:
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[Salão de Força]
Desafio: Erga um dos grandes troncos de madeira acima da altura do ombro OU empurre/arraste o bloco de pedra por 100 metros.
Tempo limite: 2 horas.
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Com o papel em mãos, Marcos respirou fundo. Pegou o pequeno saco de mantimentos, adicionou uma poção de cura e outra de mana por precaução, e rasgou o papel. Um portal de tonalidade vermelha brilhou à sua frente, pulsando com energia bruta.
Sem hesitar, atravessou o limiar.
O cenário do outro lado era completamente diferente: um campo amplo de chão batido, firme, coberto por uma fina camada de areia grossa. À sua frente, dispostos lado a lado, havia três enormes troncos de madeira, cada um com um número entalhado em sua lateral:
— 20 kg
— 35 kg
— 50 kg
Marcos arregalou os olhos. Levantar um tronco de 50 quilos acima do ombro não era exatamente o que ele considerava “simples”.
Mas foi ao olhar para o lado que ficou verdadeiramente impressionado. Um imenso bloco de pedra estava posicionado sobre o chão, com inscrições rúnicas gravadas em sua lateral. A marca era clara: 200 kg.
Ele não precisava levantá-la, felizmente. Mas ainda assim, teria que empurrá-la ou arrastá-la por 100 metros até o final da pista. Com o terreno irregular e arenoso, aquilo parecia uma façanha para gigantes.
Marcos se aproximou devagar, avaliando qual desafio tentaria primeiro.
Após observar os desafios por alguns minutos, Marcos decidiu começar pelo tronco menor, marcado com 20 kg. Ainda era um peso considerável, mas compatível com seus atributos atuais — e parecia o melhor ponto de partida. Respirou fundo, caminhou até ele e se posicionou.
Curvou-se, abraçando o tronco com os braços, e se preparou para levantar de uma só vez, confiando apenas na força do tronco e das costas. Mas, antes que fizesse qualquer movimento, ouviu a voz de Verditos às suas costas.
— Eu não levantaria desse jeito, se fosse você — alertou o guardião, com os braços cruzados e um semblante sério. — Se tentar erguer o tronco apenas dobrando as costas, vai acabar machucando a lombar… e, se por milagre conseguir levantar, é bem capaz de cair pra trás e se ferir ainda mais.
Verditos se aproximou e apontou para o chão.
— Agache de verdade, com os joelhos dobrados e a coluna reta. Abrace o tronco firmemente, estabilize o peso… e então levante usando as pernas, o abdômen e os braços juntos. É o corpo inteiro trabalhando — não só os braços e as costelas.
Marcos assentiu. Aquilo fazia sentido. Ajustou sua postura conforme o conselho, sentindo os músculos das pernas tensionarem enquanto se abaixava de forma controlada. Com os braços firmes ao redor do tronco e a respiração presa no peito, fez força — e, com esforço, ergueu a peça pesada até a altura do peito.
Ainda assim, não era o suficiente. Precisava apoiá-la nos ombros. Com um movimento cuidadoso, jogou o tronco um pouco mais alto, equilibrando-o na base do pescoço e controlando o peso com ambos os braços. Após alguns segundos instáveis, conseguiu estabilizá-lo.
— Hah… consegui — murmurou para si mesmo, ofegante.
Apesar de ser “apenas” 20 quilos, não havia sido fácil. Seus atributos o permitiam levantar, sim, mas não com facilidade. Ele percebia, pela primeira vez com clareza, que atributos como Força não significavam só potência bruta. Técnica, posicionamento e coordenação eram tão importantes quanto.
Sentou-se por alguns minutos para recuperar o fôlego, observando as outras peças de madeira maiores. Quando sentiu que havia recuperado o suficiente, decidiu tentar a peça seguinte: 35 kg.
Aproximou-se, ajeitou o corpo com mais cuidado, como Verditos havia ensinado, e iniciou a tentativa.
O tronco se ergueu… alguns centímetros. Mas escorregava.
Mais uma tentativa. Levantou um pouco mais, e caiu novamente no chão com um baque abafado.
E assim foi, repetidamente, por quase duas horas.
Cada tentativa arrancava mais suor e fôlego. Seus músculos tremiam. Às vezes conseguia erguer o tronco até os joelhos, mas nunca além disso. A peça parecia dobrar de peso a cada nova investida.
Mesmo frustrado, Marcos não parava. Não havia dor ou sensação de falha — apenas esforço contínuo, aprendizado silencioso.
Até que o tempo chegou ao fim.
Sem aviso, o ambiente começou a se desfazer em partículas brilhantes, e num piscar de olhos, ele estava de volta ao salão de pedra. Não havia completado o desafio, mas isso não importava tanto. Ele havia testado seus limites e compreendido um pouco mais sobre si mesmo.
Ao olhar ao redor, percebeu que a caverna estava mais escura. A luz mágica das paredes havia diminuído, indicando que a tarde avançava.
Sentindo o corpo dolorido, mas a mente surpreendentemente calma, Marcos caminhou até o lago para se lavar e, em seguida, deitou-se em sua cama de pedra macia. Era hora de descansar — o dia havia sido duro, mas necessário.