Capítulo 8: Superando os Limites

Uma semana se passou desde o primeiro sucesso de Marcos com seu totem de cura.
A lembrança daquele momento ainda era nítida — o brilho dourado suave, a vibração da madeira viva em suas mãos, a sensação indescritível de finalmente dominar uma parte concreta daquilo que chamavam de “habilidade ativa”. Mas não havia tempo para se perder no passado. Os dias seguintes exigiram esforço constante, e Marcos respondeu à altura.

Logo no início da nova semana, ele concluiu com êxito a missão do Salão de Mana. Com o controle recém-desenvolvido e a mente mais centrada, conseguiu condensar sua energia na palma da mão durante os dez segundos exigidos pela missão, mantendo o fluxo constante e sem perder o equilíbrio. Quando as últimas runas se acenderam sob seus pés, a sala o reconheceu como digno, encerrando o desafio com um brilho suave e reconfortante.

Mas ele não parou por aí.
Nos dias seguintes, voltou sua atenção ao Salão de Força e Vigor, um dos mais simples para qualquer iniciante. Cada exercício ali era uma provação física, desenhada para explorar os limites do corpo. Se fosse uma semana antes, teria falhado no primeiro obstáculo. Mas agora, com o auxílio contínuo de sua habilidade passiva de Regeneração e um domínio crescente sobre sua própria mana, Marcos começou a resistir mais, suportar mais… superar mais.

Os músculos doíam, o suor escorria, os dias pareciam infinitos. Ainda assim, ele persistiu.
Ao final daquela segunda semana de treinamento, com o corpo cansado e o espírito fortalecido, ele cruzou a linha final do último desafio. As runas vermelhas no chão do salão acenderam em um tom alaranjado vibrante, reconhecendo seu esforço. Estava feito.
Marcos havia conquistado mais dois salões.

Após completar as missões, Verditos lhe ofereceu uma explicação mais clara sobre a progressão dos Salões de Missão.

— Como mencionei antes, os salões são divididos em três níveis — explicou o espírito, com sua voz calma e paciente. — As missões de Nível 1 servem para garantir que o corpo, a mente e o fluxo de mana atinjam um padrão mínimo de excelência. O objetivo é elevar os atributos até a casa dos 10 pontos, o esperado para um humano comum em seu auge físico ou mental.

Marcos ouvia com atenção, os olhos fixos na projeção que Verditos desenhava no ar com traços de luz dourada.

— Já as missões de Nível 2 — continuou — representam um salto considerável. Elas exigem que o atributo correspondente esteja próximo dos 12 pontos, o que coloca o indivíduo em um patamar bem acima da média.

Foi então que tudo começou a fazer mais sentido.
Marcos compreendeu por que havia completado o Salão de Mana com relativa facilidade. Seu atributo de Intelecto já estava em 11 pontos ao entrar na simulação — levemente acima do necessário. A dificuldade inicial não vinha da falta de poder, mas da ausência de técnica. Ele simplesmente não compreendia como a mana funcionava nem como controlá-la. Mas, uma vez que aprendeu o caminho, a evolução aconteceu em ritmo acelerado.

Já no Salão de Força e Vigor, a história foi diferente. Seu corpo, embora mais resistente que no início, ainda não havia alcançado os 10 pontos ideais. Foi sua habilidade passiva de Regeneração que compensou parte dessa diferença, permitindo que ele superasse os desafios com esforço extra, mas sem falhar.
Mesmo partindo com atributos abaixo do recomendado, conseguiu completar os desafios graças à persistência e ao suporte de sua habilidade.

Agora, com essas novas informações em mente, Marcos sentia algo se alinhar dentro de si.
Pela primeira vez, tomou uma decisão por conta própria, consciente de sua evolução e do que viria a seguir.

Era hora de dar mais um passo.
Era hora de enfrentar o Salão de Combate.

Determinando o próximo passo, Marcos dirigiu-se até a área de missões.

Seus olhos percorreram o mural coberto de papéis até encontrar o que procurava:

Missão – Combate Simulado

Ao entrar no salão de combate simulado, você receberá uma aula individual de combate pessoal durante o período de uma hora.
Após esse tempo, deverá convidar o instrutor para um combate simulado (sparring) ou para um desafio de luta real.
Para concluir o Nível 1 do Salão de Combate, é necessário vencer o instrutor em um desafio de combate real.
(Vitória em um sparring não é suficiente para a conclusão da missão.)

Marcos leu o conteúdo em silêncio e respirou fundo.

— Que seja — murmurou, amassando o papel entre os dedos.

No mesmo instante, um dos portais circulares do salão — até então adormecido — brilhou com uma intensa luz branca, como se despertasse em resposta à sua escolha.

Era o portal para o Salão de Combate.
Era a próxima etapa da sua jornada.


Ao atravessar o portal, o ambiente mudou completamente.

Ele se viu em um salão retangular e imenso.
À esquerda, havia um ringue elevado, com cordas grossas e piso emborrachado.
À direita, o chão também era revestido de borracha — ideal para absorver impactos — e ali repousavam apenas um saco de pancadas, um par de faixas no chão e luvas simples.

Mas o que realmente chamou sua atenção foi a figura ao centro do salão.

Um ser inteiramente negro — como uma sombra viva projetada por um sol invisível.
Não emitia som, nem luz. Era feito de puro contraste.
Marcos o observou por alguns segundos… até perceber os traços.

Altura. Postura. Estrutura corporal.

Aquela sombra… era ele mesmo.

Instintivamente, virou o rosto para Verditos, que flutuava próximo ao seu ombro.

— Aquilo ali… é o instrutor da missão?

Verditos assentiu, avançando lentamente até a frente da sombra.

— Sim. Esse é o seu instrutor — respondeu com serenidade. — Um clone feito de mana, moldado à sua imagem. Ele não fala, mas demonstrará os movimentos. Caberá a mim guiá-lo e explicar o que estiver em dúvida. Observe bem.

Sem aviso, a sombra se moveu.

Marcos deu um passo para trás, surpreso com a fluidez dos gestos. Era como assistir a um espelho ganhar vida — mas um reflexo sem olhos, sem alma.

A sombra caminhou até a lateral do salão e parou ao lado do saco de pancadas.
Com calma, apontou para as faixas no chão. Então, conjurou faixas feitas de sombra e começou a enrolá-las nas mãos com movimentos firmes e precisos.

— Ele está te ensinando a colocar as faixas corretamente — disse Verditos. — Sem isso, você pode ferir os pulsos com facilidade durante os treinos. Proteção vem antes de força.

Marcos se abaixou e começou a imitar os gestos, errando algumas voltas no início, mas logo conseguindo ajustá-las. Em seguida, calçou as luvas e se posicionou diante do saco.

A sombra assumiu postura ofensiva e começou a executar os movimentos.

Primeiro, um jab.
Depois, um direto.
A guarda se mantinha firme após cada golpe. O tronco girava junto, os ombros movimentavam-se com precisão, e os pés ajustavam o equilíbrio a cada instante.

Verditos ia explicando:

— O jab é um golpe rápido, com a mão da frente. Serve para medir a distância e manter o adversário sob controle.
— O direto é com a mão de trás, mais potente. Gire o centro do corpo, transfira o peso… e mantenha sempre a guarda alta.

Marcos tentava acompanhar. No início, seus golpes eram desajeitados. Os braços iam para frente, mas sem firmeza. A postura vacilava, e sua guarda caía o tempo todo. Mas, com o passar dos minutos, o ritmo começou a se encaixar. Um golpe por vez. Uma correção por vez.

O treino durou quase uma hora.
Cansativo. Repetitivo. Fundamental.

No final, Verditos pousou ao seu lado novamente.

— Agora chegou o momento da escolha — disse. — Você deve desafiar o instrutor para um combate. Pode optar por um sparring, um duelo simulado, ou por um combate real. O sparring não vale como conclusão da missão, mas é o mais adequado para iniciantes.

Marcos já tinha sua resposta.

— Sparring.

A sombra assentiu silenciosamente.
Ambos caminharam até o ringue elevado no lado esquerdo do salão.
As luzes suavizaram. O chão tornou-se levemente emborrachado. E a sombra assumiu posição de combate.

O sparring começou.

Marcos mal teve tempo de reagir. A sombra avançava com precisão. Seus golpes não eram pesados, mas cada um atingia um ponto vulnerável.
A guarda de Marcos abaixava. O tronco girava errado. Os pés se desequilibravam.

Verditos observava e dizia:

— Reaja.
— Ajuste a base.
— Mantenha a postura.
— Proteja o queixo.

Foram cinco minutos de puro aprendizado — ou, como Marcos sentiu, cinco minutos de apanhar enquanto tentava socar o vento.

Ao final, sem forças para manter os braços erguidos, recuou.

A sombra cessou os ataques e voltou à posição neutra.

O treinamento havia terminado.

De volta à caverna central, Marcos caiu de joelhos, exausto.

O suor escorria, seus braços pesavam, os pulsos ardiam. Mas, mesmo assim… ele sorriu.

Porque agora…

Ele havia dado o primeiro passo no caminho do combate.

Apesar da dor, do cansaço e das inúmeras falhas durante o sparring, havia algo naquela experiência que mexera com ele.

Não era só sobre aprender a lutar.

Era sobre superar a si mesmo.

Nos dias seguintes, movido por esse novo entusiasmo, Marcos mergulhou de cabeça nos treinos.

Agora com um ritmo mais intenso, decidiu dividir seus esforços entre os salões que já dominava e os novos desafios de nível 2 — além daqueles que até então evitava.


Salão de Mana – Nível 2.

O novo objetivo era mais complexo: não bastava concentrar mana em um único ponto, como havia feito com os punhos. Agora, ele precisava acumular mana no centro do torso e, a partir dali, distribuí-la por todo o corpo, controlando o fluxo de forma constante e precisa.

O processo completo levava cerca de dez minutos — um contraste gritante com os dez segundos exigidos anteriormente.

A cada tentativa, Marcos sentia a mana escapar, desviar, travar. Mas, com prática, foi aprendendo a conduzi-la como um rio obediente, fortalecendo músculos, sentidos e equilíbrio.


Salão de Força – Nível 2.

A missão agora envolvia levantar três toras, com pesos de 60 kg, 70 kg e 80 kg.

Todas tinham o formato clássico de troncos, mas agora eram reforçadas com faixas de metal nas extremidades, o que dificultava o equilíbrio e aumentava o desafio.

Diferente da versão anterior — onde bastava erguer até a altura dos ombros — agora ele precisava levantar cada tora acima da cabeça e mantê-la firme por dez segundos.

Era brutal. Cada repetição exigia força máxima, foco e controle de respiração. Mas, dia após dia, ele via progresso.


Salão de Vigor – Nível 2.

Aqui, a mudança foi ainda mais assustadora.

Antes, o desafio era uma corrida de curta distância com tempo limite.

Agora, ele precisava correr 30 km em até 3 horas e 30 minutos.

Era um teste de resistência mental tanto quanto física.

Os primeiros dias foram os piores — dores nas pernas, câimbras, desânimo. Mas, gradualmente, Marcos aprendeu a controlar o ritmo, ajustar a respiração, dosar energia. Descobriu que, às vezes, a vitória está em manter-se em movimento, mesmo quando o corpo implora por descanso.


Nos intervalos, ele passou a revisitar salões que deixava de lado:

  • Salão de Resistência: um lago de água gélida, onde precisava permanecer submerso até os ombros por três minutos. No começo, trinta segundos pareciam uma eternidade. Mas com controle da respiração e força de vontade, começou a suportar o tempo completo.
  • Salão de Agilidade: plataformas flutuantes sobre um lago. Saltar entre elas exigia precisão, equilíbrio e reflexos rápidos. Caía. Levantava. Tentava de novo. E de novo.

E, sempre que podia, praticava sua habilidade ativa. Criava novos totens de cura. Testava variações. Aprendia a manter a mana mais estável dentro da estrutura mágica.

Assim se passaram duas semanas inteiras.

Somadas à semana anterior, já fazia um mês completo dentro da simulação.


Com o corpo exausto, mas o espírito mais forte do que nunca, Marcos sentou-se próximo à fonte de mana.
Respirou fundo. Fechou os olhos.

E então, mentalizou:

Ficha.

Uma luz suave brilhou à sua frente.

Partículas de energia começaram a se reunir no ar, formando lentamente a interface translúcida de sua ficha pessoal.

Palavras e números surgiram, revelando com precisão o quanto ele havia evoluído.

Marcos se encostou na parede da caverna e leu tudo com calma.

O olhar fixo nos dados. A respiração leve.

Era a primeira vez que realmente sentia:

Ele estava crescendo.
Estava se tornando alguém diferente.
Mais forte. Mais preparado.

Mais pronto para o que estava por vir.