O silêncio após a fuga era quase ensurdecedor.
Refugiados entre as colunas quebradas de uma antiga fortaleza esquecida, os cinco — agora quatro — tentavam compreender o peso da perda. A chama que antes aquecia o grupo, mesmo nos desentendimentos, agora queimava isolada, alimentada apenas pelo luto de Brakar.
A noite caiu pesada. Não havia estrelas, apenas um manto denso e opressor acima.
Yssil, sentada em um canto da ruína, mantinha os olhos fixos nas sombras. Ao seu lado, Zair girava um fio de mana entre os dedos, inquieto. Elyan permanecia em pé, imóvel como as montanhas, vigiando a entrada com olhos endurecidos por memórias antigas.
Brakar se isolava. Afastado, protegia o corpo da irmã com uma espécie de instinto primal, envolto por um escudo de brasas que ninguém ousava atravessar.
Naquela noite, ninguém dormiu.
Quando o sol enfim rasgou o céu acinzentado, ele não trouxe consolo. Brakar não se moveu, mas seu olhar já não era o mesmo. Algo ali havia se partido.
Elyan foi o primeiro a falar:
— Precisamos seguir. Há outros templos. Caminhos que podem nos levar a um meio de conter a Escuridão. Ainda temos uma missão.
— E o que exatamente você quer que a gente faça? — retrucou Zair, amargo. — Jogar mais um de nós contra aquela coisa e ver quem sobra de pé?
— Ela morreu… — murmurou Yssil, mais para si mesma do que para os outros.
— Ela morreu porque fomos burros — rosnou Brakar. — Fracos. Deveríamos ter acabado com aquilo ali mesmo. Não fugido.
— Você não aguentaria outra luta, e sabe disso — disse Elyan, firme. — Essa guerra não vai ser vencida num único combate. Não somos deuses. Somos ecos. Precisamos entender a Escuridão antes de enfrentá-la de novo.
— Então a gente espera mais gente morrer? — Brakar se ergueu. A aura ao redor dele já não era só calor. Era instabilidade. O chão tremia sob seus pés. — Vocês fugiram. Ela morreu. E agora querem planejar?
— Queremos sobreviver, idiota — rebateu Zair, se levantando também. — E tentar não deixar outro corpo esfriar no chão.
O embate se dissolveu antes de se tornar físico, graças à intervenção de Yssil, que lançou uma rajada sutil de ar entre os dois.
— Chega. Todos nós perdemos. Todos nós erramos. Mas se vamos nos destruir aqui, não precisamos da Escuridão para acabar conosco.
Elyan assentiu. Ele não mostrava emoção, mas seus olhos estavam mais pesados.
— Há um lugar que pode nos ajudar — disse ele. — Um antigo santuário dos deuses. Esquecido, isolado… mas talvez ainda guarde fragmentos do que fomos. Fragmentos do que podemos ser.
Brakar encarou o corpo de Luma, agora envolto em um manto de raízes e folhas conjurado por Yssil. Ele não respondeu, mas pegou a irmã nos braços e começou a andar.
Sem uma palavra, os outros o seguiram.
Atravessaram pradarias cinzentas onde nada crescia.
Passaram por lagos secos e rios que pareciam chorar.
O mundo ao redor gritava a dor de um desequilíbrio milenar.
Em um momento, cruzaram um campo de flores negras que murchavam ao toque.
Era como se a própria terra rejeitasse a vida.
Dias se passaram.
A tensão entre eles diminuía, não por perdão, mas por exaustão.
Em uma noite particularmente fria, enquanto acampavam sob um arco natural de pedra, Brakar falou pela primeira vez de forma menos hostil:
— Ela era melhor do que eu, sabem? Mais forte por dentro. Eu era só escudo… ela era luz.
Yssil se aproximou, sentando-se ao lado dele.
— Você ainda carrega essa luz. Só está… coberta de cinzas agora.
— Ela acreditava nisso tudo. Na missão. Em nós.
— Então honre isso. Viva por ela.
Na manhã seguinte, chegaram ao limite do que restava do antigo Santuário dos Ecos, um local erguido antes mesmo da guerra original.
Ali, segundo Elyan, era onde os avatares antigos se preparavam para receber suas dádivas.
O templo estava em ruínas, mas ainda guardava mana em suas pedras.
No centro, havia cinco pilares — um para cada elemento.
O pilar de Água brilhava fracamente, como se ainda sentisse a conexão quebrada.
Eles enterraram o corpo de Luma ali, aos pés de seu pilar.
E quando terminaram, algo mudou.
Uma onda de mana percorreu o chão. O templo despertou por alguns instantes.
Uma voz ecoou nas mentes dos quatro:
“Os ecos não são o fim… mas o começo de um novo ciclo.”
Brakar caiu de joelhos.
Seu corpo inteiro ardia — mas não de dor. Era como se uma nova força o percorresse.
Seus olhos, antes vermelhos de raiva, agora queimavam com determinação.
E atrás deles, uma sombra observava.
A Escuridão… lembrava. E esperava.
O Santuário dos Ecos guardava uma tranquilidade enganosa.
Mesmo após a onda de mana que reacendeu as pedras antigas, o ambiente não se tornava menos opressor.
Era como se o templo, por mais sagrado que fosse, estivesse suspenso entre o que foi… e o que não poderia mais ser.
As árvores ao redor estavam petrificadas.
As folhas, estáticas no ar, não caíam nem se desfaziam.
O tempo, ali, parecia hesitar — mais um reflexo do desequilíbrio que assolava o mundo.
O grupo, agora com quatro membros, permaneceu no local por mais dois dias.
Não por escolha, mas por necessidade.
As energias que despertaram no templo haviam afetado todos — principalmente Brakar, que passou horas desacordado após a manifestação da nova força em seu corpo.
Durante esse tempo, Yssil e Elyan cuidavam das barreiras ao redor, temendo que mais fragmentos da Escuridão pudessem encontrar o caminho até ali.
Zair, por sua vez, permanecia inquieto. Caminhava em círculos, murmurava para si mesmo, tentava entender por que — mesmo tendo sido ele a sugerir o recuo — sentia-se o mais culpado.
Na noite do segundo dia, Elyan convocou todos ao redor do pilar central.
A luz que saía das colunas elementais era tênue, mas constante.
Mesmo sem palavras, eles compreendiam: aquele lugar estava tentando curá-los.
— Há algo que não contei — disse Elyan, quebrando o silêncio.
Brakar e Yssil o encararam. Zair cruzou os braços, já com expressão desconfiada.
— Esse templo… é mais antigo do que qualquer um de nós imaginava.
Ele foi construído pelos primeiros avatares, os escolhidos diretos dos deuses.
Mas não era apenas um local de preparação.
Era um selo.
— Selo? — perguntou Yssil.
— Para conter fragmentos do artefato original.
Aquele que causou a guerra dos deuses. O mineral capaz de manipular Tempo e Espaço.
O silêncio foi imediato.
Até que Zair explodiu:
— E você achou que era uma boa ideia NOS ENTERRAR aqui?
— Eu não sabia se o selo ainda existia. Mas sim… era nossa única chance de aprender alguma coisa.
E parece que conseguimos — respondeu Elyan, firme.
Brakar assentiu, surpreendentemente calmo:
— O que esse mineral faz?
— A verdade é que ninguém sabe ao certo.
Mas há registros dizendo que ele altera a estrutura da realidade.
Ele não só corrompe… ele reescreve.
Os deuses o queriam por isso.
E foi por ele que a Escuridão se perdeu.
Yssil se aproximou, os olhos fixos no chão:
— Se isso estiver aqui… a Escuridão vai querer vir buscar.
— Ela já sabe — disse Brakar. — Sentiu quando acordamos o templo.
Nesse momento, a mana no ar os alertou.
Uma mudança súbita.
Um som abafado, como se o mundo prendesse a respiração.
E então, o chão tremeu.
Ao longe, uma tempestade se formava — mas não era feita de nuvens.
Era um redemoinho de trevas líquidas, com fragmentos de pedra flutuando no ar e relâmpagos de mana cortando o céu em direções aleatórias.
— Ela vem — murmurou Yssil.
Sem tempo a perder, os quatro se organizaram.
Elyan desenhou runas no solo — antigas proteções herdadas dos tempos antes da guerra.
Yssil preparou correntes de ar em espiral para dispersar os primeiros ataques.
Zair, apesar do medo, concentrou seus fluxos mais rápidos, criando pontos de choque ao redor do santuário.
Brakar, com o olhar fixo no horizonte, aproximou-se do pilar de Luma. Tocou-o uma última vez.
— Dessa vez, ela não nos tira mais nada.
A primeira onda de trevas chegou como uma muralha.
Criaturas deformadas, nascidas da corrupção, avançaram com ferocidade.
Lobos com espinhos de pedra, sombras com membros demais, espíritos fundidos à terra quebrada.
O combate começou.
Elyan ergueu muralhas para conter a investida.
Yssil voava em círculos, cortando e desviando.
Zair se movia como um raio entre as formas distorcidas, eletrocutando cada criatura que tocava.
Brakar… era outra coisa.
Sua chama não era mais rubra.
Era dourada, com tons azulados.
Ele lutava com a fúria de quem já não tem medo de morrer, mas com a precisão de quem tem algo a proteger.
Cada golpe era uma explosão.
Cada passo, um rastro de brasas que derretia o solo.
O grupo resistia.
Mas a Escuridão… surgia no céu.
Ainda incompleta, como uma lembrança viva.
Sem rosto — apenas olhos.
Olhos que choravam trevas e atravessavam as almas.
Yssil hesitou ao vê-la.
Zair recuou, só por um instante.
Foi o suficiente.
Uma das criaturas atravessou as defesas. Saltou sobre Yssil.
Brakar interveio, mas se feriu no processo. Um golpe o atingiu de lado, espalhando brasas e sangue.
Ele cambaleou… mas não caiu.
— Não vamos conseguir aqui — disse Elyan. — Precisamos nos dispersar. Levar a luta para diferentes pontos.
Ela é forte demais para enfrentarmos juntos. Canaliza nossa união contra nós.
— Separar agora?! — gritou Zair. — Vamos cair um por um!
— Ou dar a um de nós a chance de acertar o coração dela.
Todos hesitaram.
Então Brakar avançou.
Tomou impulso, atravessou uma onda de trevas e gritou:
— Façam como quiserem!
Mas eu vou derrubar essa coisa… nem que seja sozinho!
Yssil o seguiu logo depois.
— Ele vai morrer sem apoio. E eu não vou carregar outro corpo.
Zair praguejou e partiu também.
Elyan ficou para trás.
Os olhos pesados… mas firmes.
Deixou o selo sob sua proteção e se preparou para segurar a criatura o máximo de tempo possível.
A partir daquele momento, o grupo já não era mais um.
Cada um seguiria para um destino diferente.
E no centro do mundo, a Escuridão… sorria.
Porque sabia: a divisão era o começo da queda.
A perseguição pela cratera corroída era um desafio à própria realidade.
Brakar liderava, seu corpo envolto em chamas azuladas.
A forma física já mal resistia ao poder elemental que se acumulava.
Cada passo queimava o solo… rachava o tempo.
Seus olhos não piscavam — como se mirar a Escuridão fosse o único modo de manter-se inteiro.
Yssil o seguia à distância, saltando entre pedaços de terra suspensos.
Suas pernas sangravam em cortes rasos, mas seus olhos estavam firmes.
Não por coragem — mas por orgulho. Não deixaria Brakar morrer sozinho.
Zair vinha logo atrás, quase deslizando pelos fragmentos de solo instável, como um raio indeciso entre nuvens.
A dúvida o corroía mais do que qualquer ferida.
O monstro no céu os esperava.
A Escuridão não atacava.
Ela se moldava.
O corpo de sombras adquiriu contornos femininos. Era esguia, fluida, com braços longos demais.
Cabelos que flutuavam como serpentes líquidas.
Ela lembrava algo… ou alguém.
— Irmã… — murmurou Brakar, parando abruptamente.
Os olhos da criatura brilharam. Não com ira… mas com pesar.
O mesmo tom de azul que um dia iluminara o olhar de Luma cintilava brevemente em seu rosto sombrio.
Yssil se posicionou ao lado dele.
— Isso é um truque.
— Ou é o que restou dela — sussurrou Zair, finalmente os alcançando.
Por um momento, os três hesitaram.
O inimigo parecia frágil. Silencioso.
Como se pedisse para ser destruído… ou compreendido.
Então, sem aviso, a Escuridão gritou.
Não com som — mas com emoção.
Uma onda de perda.
Angústia.
Solidão.
Um grito que os atingiu diretamente no coração.
Yssil caiu de joelhos.
Zair cambaleou, os olhos marejados.
Brakar, por outro lado… rugiu de volta.
Um rugido de raiva. De luto.
E avançou.
Com um salto flamejante, atirou-se contra o corpo da Escuridão.
O impacto rasgou o ar.
A criatura gritou — dessa vez com dor real.
Partes dela evaporaram.
Brakar não parou.
Atacava como se cada golpe fosse um adeus.
Como se golpeasse não apenas o inimigo… mas a culpa dentro de si.
Yssil se levantou e cobriu o flanco esquerdo.
Usou as correntes de ar para cortar as asas de sombra.
Zair, com as mãos tremendo, soltou um raio que atravessou a criatura, fazendo-a estremecer.
A batalha parecia pender a favor deles.
Por um instante, o céu clareou.
Mas foi apenas um instante.
A Escuridão colapsou sobre si.
Encolheu… e então explodiu.
Fragmentos de treva e mana negra se espalharam como agulhas.
Yssil foi atingida no peito.
Caiu, inconsciente.
Zair protegeu-se com uma barreira instável, mas parte da energia atravessou.
Seu braço esquerdo foi parcialmente carbonizado.
Brakar permaneceu de pé.
Mas algo em seus olhos havia mudado.
O azul intenso agora era uma rachadura.
O calor que o envolvia parecia trincar sua própria pele.
— Acabou… — disse, aproximando-se da criatura, que se reconstituía.
Mais fraca. Mas ainda viva.
Ele carregava o que restava do poder de sua essência.
Sua forma já era quase completamente elemental.
Carne e osso davam lugar a magma puro.
A Escuridão estendeu a mão.
Não para atacar — mas para tocar.
Um gesto quase humano.
E Brakar hesitou.
Nesse instante, ele ouviu uma voz.
Não da criatura.
Mas de si mesmo.
Ou talvez… da irmã.
— Ainda há tempo.
Mas a chama dentro dele não queria tempo.
Queria fim.
Ele gritou e liberou tudo.
Uma onda de calor e luz tomou o campo de batalha.
A Escuridão gritou com ele — mas de dor.
A terra tremeu.
O céu rachou.
O tempo congelou… por um segundo que pareceu uma eternidade.
Quando a luz cessou, havia apenas silêncio.
Nada restava além de brasas.
Nenhum corpo.
Nenhuma sombra.
Apenas um único ser:
Uma figura feita de fogo vivo, ajoelhada no centro da cratera,
segurando algo que já não existia — o colar de Luma.
Ele havia vencido.
Mas pagara o preço.