Capítulo 1

O Preço da Misericórdia

A cidade de Virellia era um organismo doente. Seus bairros centrais ostentavam cúpulas douradas, postes de luz encantados e fontes que nunca secavam. Nas bordas, porém, onde o concreto rachava e o lixo se acumulava nas esquinas, reinava a fome, a violência e o medo. Lá viviam os esquecidos — e entre eles, os irmãos Lucas e Thomas.
Lucas não acreditava em justiça, nem em redenção. Aprendeu cedo que a sobrevivência era uma moeda sangrenta, e que, para viver, alguém precisava morrer. Sua reputação como cobrador de dívidas era mais temida que a lâmina de um carrasco. Trabalhando para uma das grandes companhias do submundo, sua função não era só cobrar — era punir. Um aviso para quem ousasse atrasar o pagamento. E ele o fazia com frieza.
Mas para Thomas, Lucas era apenas o irmão mais velho, o único que cuidava dele desde que seus pais morreram. Nunca soube da vida sangrenta que o irmão levava. Lucas fazia questão de manter esse lado escondido. Criara uma muralha invisível entre o mundo que conhecia e o mundo que queria que Thomas acreditasse existir.
Na manhã do aniversário de Thomas, Lucas decidiu levar o garoto à Baixa Alta, um distrito onde os cidadãos de classe média passeavam entre mercados limpos e pequenas livrarias. Não era um território proibido para os do subúrbio, mas os olhares eram sempre de desconfiança.
— Não encosta em nada. E se alguém encostar em você, abaixa a cabeça — advertiu Lucas, ajustando o casaco surrado sobre os ombros.
Thomas assentiu, mas seus olhos brilhavam. Era a primeira vez que via vitrines com brinquedos artesanais e bancas de doces alinhadas como joias.
— Você vai gostar disso aqui — disse Lucas, forçando um sorriso.
Andaram entre as ruas de paralelepípedos até uma barraca onde um senhor vendia livros usados. Thomas ficou fascinado por um volume de capa vermelha, com desenhos de dragões.
Lucas tirou algumas moedas do bolso. Dinheiro limpo — fruto de semanas poupando o pouco que restava depois de cada trabalho. Quando entregou o livro ao irmão, viu o garoto sorrir como não via há muito tempo.
Mas a paz durou pouco.
Enquanto caminhavam de volta, Thomas se distraiu folheando as páginas e esbarrou sem querer em uma jovem de vestido azul-claro. Um som seco ecoou. O tecido fino se rasgou na altura do quadril. Ela se virou com os olhos arregalados.
— Você… rasgou meu vestido! — disse, olhando espantada para a peça danificada.
Antes que Lucas pudesse reagir, dois guardas da cidade se aproximaram correndo. Suas armaduras reluziam, e suas botas ecoavam alto sobre as pedras.
— Ele é da favela! — gritou um dos passantes.
— Ele encostou na dama Elena! — exclamou o outro.
Thomas recuou assustado, tropeçando. Um dos guardas sacou o cassetete.
— Vamos ensinar o que acontece quando um rato encosta em um cisne — murmurou o soldado, avançando com fúria.
Lucas não pensou. Seu instinto falou mais alto. Pulou à frente do irmão e empurrou o guarda para o lado.
— Toquem no meu irmão, e perdem a mão — rosnou.
O segundo guarda sacou a espada. Thomas gritava, e a multidão começava a se aglomerar.
Lucas olhou ao redor. Se matasse um deles, não escapariam. Poderia usar a garota como refém… talvez. Mas, ao olhar para ela, esperando ver medo ou repulsa, viu algo inesperado.
Compaixão.
Elena, a jovem da alta classe, ergueu a mão.
— Parem! — ordenou com voz firme. — Foi só um acidente. Ele é só uma criança.
Os guardas hesitaram.
— Mas… senhorita Elena…
— Eu disse para pararem! Ele não fez por mal. — Ela olhou para Thomas. — Está tudo bem, você está bem?
Thomas, trêmulo, assentiu. Lucas, confuso, apenas observava. A jovem se aproximou e colocou a mão no ombro de Thomas.
— Tenha mais cuidado ao andar, certo?
Lucas não sabia o que dizer. Por um segundo, sentiu o mundo girar de forma diferente. Na favela, ninguém jamais intervia por alguém. Misericórdia era uma palavra extinta. Ainda mais vindo de cima. Ainda mais para alguém como eles.
— Obrigado… — murmurou, quase sem voz.
Elena apenas sorriu, breve, antes de se afastar com seus seguranças, deixando os guardas murmurando entre si.
Naquela noite, Lucas não dormiu.
O sangue de dezenas de homens pesava em suas mãos, e ele nunca duvidara da validade de cada morte. Era ele ou eles. Era pelo bem do irmão. Sempre fora. Mas, pela primeira vez, viu alguém com poder escolher não esmagar os fracos. E não conseguiu tirar isso da cabeça.
Nos dias seguintes, Lucas continuou cobrando dívidas. Mas algo havia mudado. Nos becos onde antes deixava corpos como avisos, agora deixava apenas ameaças. Onde antes quebrava dedos, passava mensagens. A violência ainda era parte do trabalho, mas ele a dosava. Começava a distinguir os que mereciam castigo dos que eram apenas peões num jogo maior.
— Está ficando mole, Lucas — disse seu parceiro certa vez, cuspindo no chão. — Isso vai te matar.
Lucas não respondeu. Talvez matasse. Mas, pela primeira vez, estava começando a enxergar outra coisa além da escuridão.
Certa tarde, seu superior o chamou. Um serviço importante. Um nobre da Alta Virellia, o setor mais rico da cidade, estava devendo uma fortuna à Companhia. A ordem era clara: matar a esposa e a filha. Deixar o homem vivo para assistir. Uma lição para os outros.
— Ele tem uma filha adolescente. Bonita, dizem. Bem cuidada. Vai doer mais assim — disse o informante, sorrindo.
Lucas partiu à noite, em silêncio. No caminho, pensava em Thomas. Em Elena. No sangue que derramaria. O portão da mansão estava aberto. Entrou sem fazer ruído, adentrando o jardim como uma sombra.
Subiu os degraus da varanda com a faca em punho.
Mas quando abriu a porta do salão… congelou.
Ali estava ela.
Elena.
A mesma garota. O mesmo olhar.
Ela não o reconheceu de imediato. Estava sentada ao piano, os dedos ensaiando acordes suaves.
Mas então, seus olhos encontraram os dele.
E tudo parou.
Elena reconheceu Lucas no mesmo instante em que ele deu o primeiro passo dentro do salão. O vestido claro, agora trocado por um traje mais simples de casa, tremulou levemente quando ela se ergueu do banco do piano.
— Você… — sussurrou.
Lucas não respondeu. A mão direita segurava firme a faca. A esquerda tremia. Era a primeira vez que hesitava assim, mesmo depois de anos fazendo exatamente isso.
A porta da sala ao lado rangeu, e uma mulher — provavelmente a mãe de Elena — apareceu com uma xícara de chá nas mãos. Ao ver Lucas, paralisou. Os olhos arregalados. A xícara caiu e se espatifou no chão.
— Quem é você? — gritou, recuando.
Lucas ergueu a mão.
— Não grite.
Sua voz saiu rouca. Elena deu um passo à frente, ficando entre ele e a mãe.
— Por que está aqui?
Lucas olhou ao redor. Havia algo profundamente errado naquilo. Ele conhecia aquele tipo de casa — já tinha matado em mansões como essa. Mas ali… havia vida. Havia música, livros abertos, cheiro de pão assando. Havia algo que ele nunca vira: normalidade.
— Seu pai deve muito dinheiro — murmurou. — Me mandaram dar um recado.
Elena franziu o cenho.
— Um recado com uma faca?
Lucas baixou o olhar. Ela não sabia o que ele era. Ou talvez soubesse.
A mãe já estava em prantos.
— Por favor, não nos machuque… Somos só civis…
Lucas deu um passo atrás.
— Ele tem três dias para pagar. Depois disso, eles mandam outra pessoa. Uma que não vai hesitar.
Virou-se para sair. Mas, antes de cruzar a porta, Elena disse algo que o deteve:
— Eu lembro de você. Aquele dia… com seu irmão. Você não é um monstro, mesmo que tente agir como um.
Lucas permaneceu parado por alguns segundos. Então, sem dizer mais nada, desapareceu pela escuridão do jardim.

Na manhã seguinte, a cidade sussurrava.
“Um agente da Companhia esteve na casa de um nobre e não matou ninguém.”
“Deixou a família viva.”
“Foi visto saindo em silêncio.”
“Está louco?”
“Está com pena?”
Lucas sabia o que viria. Os informantes da Companhia estavam em toda parte. E deixar vivos os alvos era inaceitável. Mas ele não se importava. Pela primeira vez, fez o que achava certo — mesmo que isso lhe custasse tudo.
Ao chegar em casa, encontrou Thomas dormindo no sofá com o livro de capa vermelha aberto sobre o peito. A luz fraca do subúrbio mal iluminava o cômodo, mas o sorriso do irmão bastava para aquecer o ambiente.
Ele se sentou ao lado do garoto e o observou dormir. Pensou em todas as mortes que causou, em cada passo que deu por dinheiro, por sobrevivência, por promessas de segurança. E naquele momento, uma decisão se formou como um açoite em sua mente: ele não ia mais ser uma ferramenta da Companhia.
Mas sair não era tão simples.
Ninguém deixava a Companhia vivo. E eles não esqueciam.

Dois dias depois, Lucas foi chamado de novo.
Desta vez, para o Quartel Central da Companhia — uma construção antiga de tijolos escurecidos pelo tempo, no coração do setor industrial. O cheiro de óleo queimado e sangue seco preenchia o ar.
— Então… — disse o supervisor, um homem grande e de rosto cheio de cicatrizes, conhecido como Muralha. — Te enviei para uma execução e volta com palavras?
Lucas manteve a expressão firme.
— Era uma criança. E uma mulher. Não eram o alvo. Dei o aviso. Agora ele tem prazo.
Muralha se ergueu.
— O aviso foi dado quando assinou o contrato de dívida. O recado era o sangue, Lucas.
O silêncio pesou.
— Está mudando de lado? — perguntou o homem, se aproximando.
— Estou pensando — respondeu Lucas.
O supervisor o observou por um longo tempo.
— Não pense demais. Gente que pensa começa a duvidar. Gente que duvida começa a hesitar. E quem hesita… morre.
Lucas virou as costas e saiu. Já tinha decidido. Só restava descobrir como cortar os laços antes que fosse tarde demais.

Naquela mesma noite, ao chegar ao apartamento, Lucas percebeu algo errado. A porta entreaberta. Os passos suaves no corredor. O estômago apertou.
— Thomas? — chamou.
Nenhuma resposta.
Avançou rápido, o coração batendo forte. Encontrou o apartamento revirado. As gavetas abertas. O livro de dragões jogado no chão, rasgado ao meio.
Sobre a mesa, um bilhete:
“Você tem até o amanhecer. Apareça sozinho no porto. Ou o garoto morre.”
Lucas sentiu o mundo desabar.
Eles sabiam.
E estavam usando Thomas como isca.
Mas cometeram um erro.
Achavam que ele ainda era o homem que executava ordens sem pensar. Mas Lucas agora era mais perigoso do que nunca. Porque, desta vez, lutaria por algo real.

O porto era um lugar abandonado na costa leste de Virellia, entre guindastes enferrujados e contêineres velhos. A névoa da madrugada envolvia os galpões como véus de um funeral.
Lucas chegou pouco antes das quatro da manhã. Estava sozinho. Desarmado. De propósito.
Muralha estava lá, com três capangas ao lado. E Thomas, amarrado, com um pano na boca, jogado perto de uma pilha de caixas.
— Você realmente amoleceu, Lucas — disse Muralha. — Uma pena. Era o melhor que tínhamos.
Lucas deu um passo à frente.
— Soltem ele. Eu vim.
— Você sabe como isso funciona — respondeu o homem. — Quem trai a Companhia… não sai andando.
Lucas respirou fundo.
— Então vamos acabar com isso.
De repente, ele jogou um pequeno frasco ao chão. Uma explosão de fumaça cobriu tudo. Era gás de névoa — roubado de um velho fornecedor. Em segundos, a visão de todos foi tomada.
Os gritos começaram. Os tiros ecoaram. Mas Lucas já estava em movimento. Usando a confusão, correu até Thomas, cortou as amarras com uma lâmina escondida no cinto e o carregou nos ombros.
Um dos capangas os viu e tentou impedir. Lucas girou o corpo, desviando do golpe e cravando a faca improvisada no estômago do homem. Sangue espirrou no casaco, mas ele não parou. Correu com Thomas pelas docas até um velho esgoto que conhecia desde garoto — uma saída usada por contrabandistas.
Horas depois, estavam longe dali.
Exaustos. Vivos.
Lucas sabia que agora era um homem marcado.
Mas também era um homem livre.

Meses se passaram.
A cidade de Virellia fervia. Os rumores da guerra civil cresciam. A desigualdade se tornava insustentável. Barricadas começaram a surgir nos limites da classe média. Facções de trabalhadores se organizavam. Os nobres temiam revoltas. Os subúrbios ardiam de raiva.
E no meio do caos, Lucas e Thomas reapareceram.
Sob outro nome. Outro disfarce.
Vivendo entre os rebeldes, Lucas agora usava suas habilidades de antes para proteger. Para ensinar. Para derrubar o sistema que quase destruiu sua vida. E a de tantos outros.
Elena — a jovem da alta classe — também começou a aparecer em reuniões discretas. Ela, filha de um dos nobres, passara a questionar o próprio pai. E com isso, cruzava caminhos novamente com Lucas… mas dessa vez, em lados parecidos.